Cachorrinho forçado

“Anal” e “cachorrinho” são degradantes para as mulheres?

Recentemente, entrei em contato com uma matéria que apresentava a polêmica declaração de uma líder feminista em entrevista ao Jô Soares em maio de 2016. Basicamente, a mulher identificada como Helena Ramirez, teria dito que a posição “cachorrinho” é coisa de mulher submissa e alienada, bem como que o sexo anal não passa de uma espécie de treinamento para o homem se tornar gay.

Porém, será isso verdade? Neste artigo, eu procurarei discutir a veracidade dessa história e, também, falar a respeito de certos discursos que apontam algumas práticas sexuais como degradantes para as mulheres.

 

Cachorrinho forçado

 

Então, a notícia “Movimento feminista pede para mulheres não transarem ‘de quatro’” é falsa, ela é um hoax (boato) que circula pela internet já tem um tempinho, pois encontrei uma menção num artigo de 01 de abril de 2011, bem como um artigo datado de 04 de maio de 2011 que desmente a coisa toda, falando sobre como não há qualquer registro acerca da tal líder feminista Helena Ramirez e sobre como a entrevista não foi encontrada.

De fato, não é possível encontrar qualquer rastro da suposta entrevista no catálogo de vídeos do Programa do Jô, disponível no G Show, nem de uma Graduada em Filosofia pela USP, Mestre em Estudos de Gênero pela UNICAMP e Doutora em Sociologia pela USP chamada Helena Ramirez – como uma rápida busca pelo Lattes confirma – e tampouco há vestígios dos livros supostamente publicados por tal “líder histórica do feminismo”.

 
Helena Ramirez

Uma busca no Google Imagens por essa foto mostra uma infinidade de sites russos.

 

Entretanto, o fato de a líder feminista Helena Ramirez não existir não significa que o discurso atribuído a ela não exista – e, sim, ele existe. Realmente existem pessoas (não apenas mulheres feministas e homens que, sabe Deus o porquê, são pró-feminismo1) que acreditam e defendem que a posição “de quatro” é degradante para a mulher e que o homem que curte comer o cuzinho sodomizar a mulherada é, na verdade, um gay enrustido.

 

Anal é degradante pra quem?

 

Começando pelo segundo caso, é comum ver gente atribuindo a responsabilidade da visão negativa da prática do sexo anal à Bíblia, sendo que realmente há uma quantidade considerável de cristãos que condenam a prática – e muitos deles embasam sua condenação mediante o uso dos versículos 10, 11, 12 e 13 de 1 Coríntios 6:

 

10 Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o reino de Deus.

11 E é o que alguns têm sido; mas haveis sido lavados, mas haveis sido santificados, mas haveis sido justificados em nome do Senhor Jesus, e pelo Espírito do nosso Deus.

12 Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma.

13 Os alimentos são para o estômago e o estômago para os alimentos; Deus, porém, aniquilará tanto um como os outros. Mas o corpo não é para a fornicação, senão para o Senhor, e o Senhor para o corpo.

 

Onde o termo “sodomitas” é referente ao habitantes de Sodoma e seus pecados, o que pode ser lido nas passagens no livro do Gênesis em que se dá a destruição de quatro das cinco cidades do Vale de Sidom, isto é, Sodoma, Gomorra, Adamá e Seboim. Bala, também chamada de Segor, foi a única que escapou da destruição, porque Ló fugira com sua esposa e filhas em direção a ela. Porém, note que em momento algum o pecado praticado pelos sodomitas é explicitado como sendo algo de caráter anal, a coisa toda sendo muito subjetiva.

Outra passagem muito utilizada para embasar tal condenação é Romanos 1 18-27:

 

18 Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens, que detêm a verdade em injustiça.

19 Porquanto o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta, porque Deus lho manifestou.

20 Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis;

21 Porquanto, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu.

22 Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos.

23 E mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis.

24 Por isso também Deus os entregou às concuspiscências de seus corações, à imundícia, para desonrarem seus corpos entre si;

25 Pois mudaram a verdade de Deus em mentira, e honraram e serviram mais a criatura do que o Criador, que é bendito eternamente. Amém.

26 Por isso Deus os abandonou às paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural, no contrário à natureza.

27 E, semelhantemente, também os homens, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros, homens com homens, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a recompensa que convinha ao seu erro.

 

A propósito, é interessante ver que, em 2013, muita gente no meio protestante ou evangélico, como queira, se levantou contra a declaração do pastor Silas Malafaia de que a Bíblia não condena o sexo oral e o sexo anal e que, portanto, tais práticas estariam liberadas entre o marido e sua esposa. Basta fazer uma rápida pesquisa no Google para ver essa discussão.

Quanto à Igreja Católica Apostólica Romana, o posicionamento dela em relação ao sexo anal (e ao sexo oral) é o de que tal prática não é correta, nem entre um homem e uma mulher casados, como o padre Paulo Ricardo teria esclarecido no programa “Sem Censura”:

 

 

Agora, saindo um pouco da questão religiosa, também há dois entendimentos muito comuns a respeito do desejo masculino pelo sexo anal: O de que o cara com certa tara por anal com a parceira seja homossexual enrustido e o de que ele deva rever sua sexualidade no sentido de que ele não passe de um sujeito que odeie ou tenha aversão/angústia por mulheres e queira apenas as ver sofrer, algo que costuma ser conhecido como misoginia. Sim, realmente existem sujeitos assim, que chegam a fazer de toda e qualquer relação sexual um ato de tortura física e psicológica para a parceira, mas isso não quer dizer que absolutamente todo homem que seja chegado num asterisco feminino seja esse tipo de cara.

Exemplos tanto do primeiro quanto do segundo entendimento abordados no parágrafo anterior podem ser encontrados no artigo “A fixação por sexo anal“, da feminista Lola, e nos comentários ao mesmo, como a usuária Dona do Sexo:

 

opinião sobre o homem que gosta de anal

 

Por fim, também a medicina torce o nariz para a prática do sexo anal, tanto o hétero quanto o homossexual, pois, como a professora Anete Guimarães esclarece numa palestra cujo vídeo encontra-se disponibilizado no YouTube, a mesma pode gerar a doença chamada endocardite bacteriana, que é a colonização das válvulas cardíacas por bactérias, e também câncer retal, bem como o câncer de próstata entre os homossexuais masculinos, entre outras coisas. Note que a professora também afirma que as mulheres são incapazes de sentir prazer anal (conheço uma quantidade significativa de moçoilas que a desmentiria) e que o homem que deseja submeter a parceira a tal prática só o faz por sadismo.

 

 

Quem tem medo da “cachorrinho”?

 

Quanto ao primeiro caso, a primeira vez que eu tive contato com esse discurso foi durante o segundo ano do ensino médio (leia-se: 2006), sendo proferido por uma colega que havia passado uma temporada estudando noutro Estado e voltara para passar outra temporada estudando no Amapá. Quando, numa roda de conversa, a mesma foi indagada sobre certas práticas sexuais, ela veio com essa de que sequer cogitava vir a praticar uma posição sexual tão degradante para a mulher como a famosa “de quatro”.

O segundo contato veio já na faculdade (em algum momento entre 2011 e junho de 2014, ainda que eu tenha o ano de 2013 em mente), com uma guria do curso de Licenciatura em Letras, que declarou ser a posição cachorrinho e o sexo anal práticas muito degradantes para a mulher e essencialmente machistas, pois, nelas, seria impossível qualquer mulher sentir algum prazer, a mesma também dizendo que as mulheres só concordam em participar de tais práticas por pura submissão aos seus companheiros, para agradá-los, os homens sendo os únicos que sentem prazer com tais coisas.

Não satisfeito, o Destino resolveu me brindar com essa mesma ladainha sendo proferida por uma ou outra pequena2 em encontros de estudantes de Letras (2013 e 2014), a diferença é que eu me deparei com complementos como “patriarcado opressor” e “misógino(a)” – e também com uma eventual referência a certa declaração da cantora e graduada em Letras, Sandy & Junior, digo, Sandy Lima, de que é, sim, possível uma mulher ter prazer anal.

Claro, alguém poderia dizer que essas minhas experiências não são suficientes para upar, digo, subir de nível, digo, provar a existência de tal discurso e que eu poderia estar mentindo feito uma faceminista3 ao postar um textão contando sobre um falso caso de abuso, assédio ou outra forma de agressão, porém… Se esse discurso esdrúxulo realmente não existisse, não haveria pessoas preocupadas em saber o porquê de a posição “de quatro”, também conhecida como “cachorrinho” ou “doggy style“, ser degradante para a mulher, como alguém questionou no site gringo Girls ask Guys:

 
Questionamento no Girls asks Guys

Eu não acho que ela seja degradante, porque eu pessoalmente não me sinto degrada por ela. Eu imagino que algumas gurias possam sentir que tal posição é degradante por ser uma na qual o homem as está dominando por completo. O homem também é dominante na missionária, mas, nela, os dois estão face à face, é pessoal. Na cachorrinho, a mulher tem suas costas para o homem, o qual pode sentir algo impessoal. Para algumas mulheres, face à face é importante por uma satisfação emocional e, literalmente, por excitação. Então, perder a oportunidade de fazer isso pode fazer essas gurias se sentirem usadas, como se o homem pudesse estar fodendo qualquer uma e não valorizando realmente aquela com quem ele está atualmente ou não se preocupando com as necessidades emocionais dela durante o ato. Sendo dominada de forma impessoal, de modo que (ela) pode se sentir degradada. Mais uma vez, eu, pessoalmente, não me sinto degradada por esses atos. Eu os aprecio. Só é degradante quando você, pessoalmente, se sente degradada por isso. Ela não é inerentemente degradante.

 

Ou mesmo em relatar que sua namorada acha a posição em questão algo inerentemente sexista e degradante, como o usuário WhereAreMyMinds fez dois anos atrás (2014) na rede social Reddit:

 
Reddit Doggy style degradante

Assim, a minha namorada e eu namoramos a quase dois anos agora. A vida sexual é geralmente muito boa, mas ela altamente prefere missionária acima de todas as outras posições. Ela deve ficar por cima de vez em quando, e nós fazemos de ladinho muitas vezes também. Nós já fizemos cachorrinho algumas vezes, mas a maioria no começo do relacionamento. Eu mencionei que eu quero combinar isso algumas vezes, e em nossa mais recente conversa ela me disse que acha que (a posição) cachorrinho é “inerentemente degradante e sexista,” e que ela vê o sexo como um jogo de poder que a faz totalmente submissa e não gosta disso. Totalmente justo, mas eu não penso assim, e vejo-a mais como apenas outra posição que está disponível para dois adultos conscientes alcançarem uma nova sensação se assim escolherem. Nós concordamos em discordar durante nossa última conversa, mas eu fiquei pensativo desde então.
Então, sexxit, a minha questão é esta: Vocês, caras, tem algum bom conselho sobre como eu poderia explicar melhor o meu ponto de vista? Alguma das senhoras já sentiu o que minha namorada sente e pode oferecer algum conselho do que mudou sua visão ou explicá-la melhor para mim? Eu quero ser claro, não estou chateado pela recusa dela em fazer cachorrinho, e estou feliz por continuarmos fazendo todo o resto que fazemos, mas gostaria de ser capaz de mostrar a ela que cachorrinho nem sempre é degradante e pode ser muito divertido para ela também!
tl; dr: Namorada acha que cachorrinho é degradante, eu discordo e gostaria de conselhor sobre como mostrar a ela que isso pode ser divertido e igual para nós dois.

 

Nem haveria pessoas procurando demonstrar que tal posição é mais feminista do que parece ser, como a Britni De La Cretaz faz no artigo The reason doggy style sex is more feminist than you think (A razão pela qual a posição sexual cachorrinho é mais feminista do que você pensa), sendo que ela também ressalta que, mesmo quando a posição é considerada degradante, atualmente, muitas feministas gostam de ser degradadas em determinado contexto, citando o post “I’m a feminist who loves ‘demeaning’ porn” — Is that normal? (“Sou uma feminista que ama pornô ‘degradante'” — Isso é normal?) para embasar sua consideração.

 

Conclusão

 

Ainda que a notícia da entrevista dada por uma suposta hipergraduada e histórica líder feminista seja falsa e que a entrevistada em questão sequer exista, assim como os seus livros, os discursos proferidos por ela  – de que o sexo anal e a posição cachorrinho são degradantes para a mulher e que o homem que curte sexo anal com a parceira precisa repensar a sua sexualidade – não são invencionices, tais discursos realmente existindo, por mais absurdo que possa parecer, e não sendo coisa apenas das feministas ou dos cristãos mais conservadores (no caso do sexo anal).

 
 
 
 
 

NOTAS

 

1 Basta procurar, que líderes e teóricas do feminismo com discursos anti-homem e anti-heterossexualidade, bem como manifestações, de militantes feministas, condizentes com os mesmos são encontrados. Como exemplos, há: Valerie Solanos e o seu livro Manifesto SCUM (original, em inglês: SCUM Manifesto), Mary Koss, Daphne Patai e Noretta Koertge. Assim, realmente não dá pra entender o porquê de homens defenderem uma coisa que, em seu arcabouço teórico, inclui um pensamento que prega a sua demonização ou mesmo a sua não existência – a não ser, claro, o famoso “já sei, se eu falar e fizer tudo o que as feministas consideram como certo, incluindo coisas que praticamente são pedidos públicos de desculpas por eu ser homem, talvez eu consiga comer um bocado delas”! Pretendo fazer um artigo só sobre isso, abordando o que tais teóricas feministas dizem.

2 “Pequena” é uma forma de se referir a uma mulher, sendo que a forma masculina (pequeno) é utilizada para homens.

3 Cunhei a palavra a partir da junção de Face (encurtamento de Facebook) e feminista. O termo se refere às mulheres que militam no Facebook (mas acho que pode ter o sentido ampliado para outras redes sociais, já que o Facebook é a mais conhecida delas), principalmente por meio de memes, compartilhamento de matérias que aparentemente trazem uma verdade incômoda (bem, pelo menos elas acham isso) e textões, incluindo histórias visível e ridiculamente ficcionais sobre agressões supostamente sofridas por elas ou conhecidas.

 
 
 
 
 

REFERÊNCIAS

 

Bíblia – Almeida Corrigida e Revisada Fiel – pt. Romanos 1 18-27. Disponível em: [https://www.bibliaonline.com.br/acf/rm/1]. Acesso em: 07 Set 2016.

Bíblia – Almeida Corrigida e Revisada Fiel – pt. 1 Coríntios 6 10-13. Disponível em: [https://www.bibliaonline.com.br/acf/1co/6]. Acesso em: 06 Set 2016.

Canal Francisco Cristão Católico Apostólico Romano. Sexo oral e anal, o que a Igreja acha? Padre Paulo Ricardo responde no programa “Sem Censura”. Publicado em: 21 Fev 2016. Disponível em: [https://www.youtube.com/watch?v=1wam5n1r3Yw]. Acesso em: 06 Set 2016.

Canal Julio Severo. Sexo anal é normal e saudável? Palestra da Professora Anete Guimarães. Publicado em: 03 Jul 2013. Disponível em: [https://www.youtube.com/watch?v=yhLwcJ0TKS4&feature=youtu.be]. Acesso em: 09 Set 2016.

Lola Aronovich. A fixação por sexo anal. Publicado em: 20 Set 2012, 10h49. Disponível em: [http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/2012/09/a-fixacao-por-sexo-anal.html]. Acesso em: 07 Set 2016.

Tiago Chagas. Malafaia diz que Bíblia não proíbe casais de praticarem sexo anal ou oral, desde que haja acordo; Confira. Publicado em: 02 Jul 2013. Disponível em: [https://noticias.gospelmais.com.br/malafaia-biblia-nao-proibe-casais-sexo-anal-oral-57649.html]. Acesso em: 07 Set 2016.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *