Carol Moreira e o assédio do Vin Diesel: exageros e contradições

Recentemente, a youtubeira e ex-apresentadora do Omelete, Carol Moreira, relatou sentir-se constrangida com a abordagem que recebeu do ator estadunidense Vin Diesel durante entrevista com ele a respeito do filme xXx: Reativado, a qual foi realizada no dia 02 de dezembro, uma sexta-feira. Pois bem, falarei brevemente a respeito.

Foto com beijo após a entrevista que teria sido constrangedora.

O ocorrido rapidamente virou polêmica na internet, sendo noticiado por diversos portais como um caso de assédio, enquanto as mais variadas pessoas criticaram a youtubeira, acusando-a de oportunismo e hipocrisia por conta de dois outros fatos. Em 2014, ela havia sentado no colo do ator Jason Momoa durante uma entrevista no Comic Con Experience, após o mesmo a chamar para fazer isso em resposta à pergunta sobre quem deveria sentar no trono junto a Khal Drogo e ser a nova khaleese. Além disso, inesperadamente, Jason Momoa simplesmente fez um mini-strip tease em frente a ela. Esse fato foi por compartilhado por ela no Instagram em tom de celebração:

E, em 2015, ela publicou no Twitter sobre o Shogun, lutador de MMA, dizendo que passaria vaselina nele, tal publicação virando meme ante a recente situação:

Pois bem, soma-se a isso o vídeo colaborativo que ela e o youtubeiro Pirula fizeram sobre a polêmica do filme O Último Tango em Paris, no qual, por volta dos 6 minutos e 46 segundos do vídeo (intitulado, a saber: É arte ou só mau gosto?), Carol Moreira diz que estava contando para ele que recentemente havia passado por uma situação de machismo, sem dar maiores detalhes a respeito. O vídeo, publicado em 21 de dezembro, mesmo dia em que saiu o vídeo da entrevista dela com o Vin Diesel, foi gravado em 14 de dezembro.

Em entrevista dada a Reinaldo Glioche, do IG, Carol Moreira meio que tira o corpo fora de toda a polêmica ao dizer que nunca disse que havia sofrido assédio e deixar as pessoas livres para assistirem o vídeo e decidirem se foi ou não, afirmando, ainda, que todo o constrangimento sentido se deu por conta da interrupção do seu trabalho. O que eu acho a respeito disso tudo? Bem, compartilharei meu pensamento em alguns tópicos e questionamentos, finalizando com um Kame Hame Ha algumas considerações.

Primeiramente, o Vin Diesel não aparentava estar em seu estado normal, mais parecendo estar sob efeito de alguma coisa, como as caipirinhas que ele tanto adora. Portanto, é um tanto complicado querer que alguém em tal estado aja com profissionalismo. No mínimo, diante de uma situação dessas, dever-se-ia deixar claro – na segunda interrupção – que aquilo não estava agradando e, no máximo, ao menos tentar remarcar a entrevista para um momento em que o entrevistado estivesse em melhores condições – claro, desde que houvesse a possibilidade de remarcação, nem que fosse para algumas horas depois e, aparentemente, não havia.

Em segundo lugar, por mais que ela não tenha dito que sofreu assédio – e ela realmente não disse isso, informou que se sentiu constrangida por conta dos elogios feitos por ele, das interrupções que o ator fez para falar sobre ela e sobre como gostaria de ter alguma coisa com ela (convidou-a para sair dali e para ir almoçar, inclusive). Bem, acontece que isso se caracteriza sim como assédio sexual, ao menos dicionaristicamente.

Por exemplo, o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa apresenta três definições do verbo transitivo direto assediar, das quais a segunda é “perseguir com propostas; sugerir com insistência; ser importuno ao tentar obter algo; molestar”. Quanto ao substantivo masculino assédio, há duas definições, das quais a segunda, figurada, é “insistência impertinente, perseguição, sugestão ou pretensão constantes em relação a alguém”, também havendo duas definições de assédio sexual, as quais são:

1 abordagem com intenções sexuais 2 insistência importuna de alguém em posição privilegiada, que usa dessa vantagem para obter favores sexuais de um(a) subalterno(a).

Ou seja e segundo o dicionário supracitado, por ter sido importuno ao tentar obter “algo” da Carol Moreira, o Vin Diesel a assediou. Da mesma forma, pela insistência impertinente em relação a ela, ele a assediou. Finalmente, a abordagem dele teve intenções sexuais aparentes, logo, foi assédio sexual.

Agora, juridicamente falando, o ocorrido não parece corresponder a um caso de assédio sexual. Aliás, a definição de tal crime se encontra presente no artigo 216-A do Código Penal brasileiro, artigo esse que foi alterado pela lei 10.224 de 15 de maio de 2001, sendo ela:

Assédio sexual

Art. 216-A. Constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente da sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício de emprego, cargo ou função.

Em suma, para que tivesse ocorrido algum assédio sexual na entrevista, o Vin Diesel ou teria que ser hierarquicamente superior à Carol Moreira quanto ao exercício do emprego, cargo ou função ou teria que ser superior em termos de poder de mando dentro de estrutura administrativa civil particular (isso é o que a ascendência mencionada no Art. 216-A significa em se tratando de relações de trabalho), coisas que não ocorrem, já que eles não possuem nenhuma relação de trabalho, não nesses sentidos.

E cabe aqui mencionar outro entendimento da jurisprudência do crime de assédio sexual. Embora a redação do artigo dê a entender que a coisa toda se dê no ambiente de trabalho (pois tem-se a utilização do termo inerentes e não inerente, de modo que a condição de superior hierárquico e a ascendência estão relacionadas ao exercício de emprego, cargo ou função), há o entendimento de que a ascendência presente no texto se refira a parentesco. No caso, o assédio sexual aí também abrangeria os casos onde um familiar assedia sexualmente outro – isso quando o ato não pode ser encaixado em nenhum outro crime, como estupro ou estupro de vulnerável.

Carol Moreira disse no Twitter como foi a entrevista.

No Twitter, Carol Moreira compartilhou um resumo da entrevista.

Em terceiro lugar, não acho que a publicação dela no Twitter sobre o Shogun possa ser usada como paralelo para a situação, sendo contextos diferentes e sendo algo que muitas pessoas costumam escrever em redes sociais para celebridades pelas quais possuem uma queda ou paixão. Agora, se ela o tivesse marcado na respectiva rede social ou enviado como mensagem por bate-papo, e-mail ou similar, aí sim, poderia ser utilizado para comparação.

Em quarto lugar, ok, há uma diferença significativa entre um painel (que foi o contexto no qual ela sentou no colo do Jason Momoa) e uma entrevista cronometrada (contexto envolvendo o Vin Diesel), mas será que não rola nenhum momento nos bastidores onde ela e a produção (e, consequentemente, o ator) poderiam combinar coisas como “(não) estou aberta a todo tipo de brincadeira”, tal como ela afirma que foi feito no painel da Comic Con Experience 2014? E, deixando de lado toda a discussão referente a assédio (e ao fato de, indiretamente, o Jason Momoa a ter comparado à Khaleese Daenerys Targaryen, que foi obrigada a casar com o Khal Drogo – interpretado por ele em Game of Thrones – e estuprada por ele nas núpcias) e nos focando “apenas” na questão do profissionalismo, o fato de o Jason Momoa a ter chamado para sentar no colo dele também não conta como uma interrupção do trabalho dela? E o fato de, depois disso, ele ter feito um strip tease para ela, também não conta como uma insistência? Como “machismo”? Afinal de contas, será que ele teria feito tais brincadeiras se, no lugar da Carol, estivesse o Borgo ou Hessel?

Em quinto, no sábado, tanto a Carol Moreira quanto o Vin Diesel vieram a público para falar do assunto. Ela fez um textão no Facebook e ele postou a versão sem cortes da entrevista, gravada pela produção dele, junto da legenda “”. Bem, o vídeo você pode conferir aqui:

Quanto ao textão dela, é possível identificar algumas contradições após ter visto o vídeo sem cortes. Contradições essas que eu deixarei aqui como questionamentos. Segue o textão:

Muita gente me acusando e fazendo perguntas. Então vamos lá! ❤️ LEIA O TEXTO INTEIRO ANTES DE SER BABACA NOS COMENTÁ…

Posted by Carol Moreira on Saturday, December 24, 2016

E as capturas de tela do textão, porque, né, vai que rola uma edição posterior ou exclusão, nunca se sabe:

Textão da Carol Moreira – parte 1.

Textão da Carol Moreira – parte 2.

Textão da Carol Moreira – parte 3.

Pois bem, seguem as contradições/questionamentos:

1 – Se foi somente durante o processo de edição do vídeo e após mostrar a entrevista para amigos que ela viu como o Vin Diesel foi exagerado e se ela nem mesmo ouviu tudo o que ele dizia (por estar nervosa pelos motivos citados por ela), como diabos ela se sentiu constrangida durante a entrevista?

2 – Ela diz que agradeceu ao elogio na primeira vez e pediu para seguir, mas ele insistiu por mais duas vezes. E quanto ao agradecimento que ela faz à terceira insistência dele (she is so fucking beautiful)?

3 – Ela diz que somente durante o processo de edição é que foi reparar que ele a chamou de (fucking) sexy, mas, por mais que meu listening não seja lá essas coisas, creio que a versão sem cortes divulgada por ele deixe claro que ele diz isso relativamente baixo e perguntando para a sua produção se ele poderia dizer isso alto, ante uma provável negativa, ele diz que ela é fucking beautiful. Isso não deveria ser levado em conta? Quer dizer, ele não a chamou de fucking sexy diretamente, mas sim indagou para a produção se ele poderia dizer isso alto, são duas coisas completamente diferentes.

4 – Finalmente, a Carol Moreira diz que “se está dando tanta polêmica é porque precisamos falar sobre esse tipo de comportamento”. Especificamente qual comportamento? O de interrupção do trabalho alheio para fazer brincadeiras com algum teor sexual e que podem deixar o entrevistador constrangido? Se sim, o chamado para sentar no colo e a dancinha com strip tease do Jason Momoa também entram nesse balaio?

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A meu ver, houve exagero da Carol Moreira quanto às alegações referentes ao comportamento do Vin Diesel e contradições por parte dela, principalmente quando ela precisou que terceiros (quem cuidou da edição do vídeo e os amigos dela) dissessem a ela sobre o quão foi absurdo o que ele fez e não sei mais o quê. Portanto, poder-se até mesmo dizer que ela se viu em meio a uma típica pressão de grupo, podendo, como a maior parte das pessoas, não ter visto nada de mais na entrevista, mas se vendo obrigada a dizer que viu porque seus amigos (provavelmente) politizados e empoderadas viram e, se não fizesse isso, ficaria numa situação desconfortável em relação a eles. É uma possibilidade.

Houve também exagero por parte do público dela que viu o vídeo e saiu apontando o comportamento como isso e aquilo, bem como do pessoal que agiu em reação a esse primeiro grupo. Ambos exageraram. Assim como a mídia, que, seguindo o exemplo dos grupelhos feministas, saiu fazendo uso indiscriminado do termo assédio sexual, sem especificar se o uso tinha significado comum, presente em dicionários, ou se jurídico.

Pode parecer besteira, mas essa especificação seria muito útil para evitar certos entendimentos errados, pois, por mais que os dicionários tratem uma abordagem com intenções sexuais (o que vai de um convite para jantar até coisas como “eu te chuparia todinha”) como assédio sexual, caso a mulher se sentisse ofendida e fosse procurar a justiça, muito provavelmente isso acabaria sendo enquadrado como constrangimento – e, nesse ponto, a Carol Moreira está certa ao dizer que se sentiu constrangida, o único porém é que parece que só disse isso por pressão de pessoas próximas e, claro, a hipótese de tentativa de alguma forma de promoção não pode ser descartada, nem que seja da entrevista ou mesmo do filme – afinal de contas, a polêmica promove.


REFERÊNCIAS

BRASIL. Código Penal – Decreto-lei 2848/40 | Decreto-lei nº 2848. 07 Dez 1940. Disponível em: [http://presrepublica.jusbrasil.com.br/legislacao/91614/codigo-penal-decreto-lei-2848-40]. Acesso em: 28 Dez 2016.

BRASIL. Lei 10.224. Brasília, 15 Mai 2001. Disponível em: [https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/LEIS_2001/L10224.htm]. Acesso em: 28 Dez 2016.

HOUAISS, Antônio (1915-1999); VILLAR, mauro de Salles (1939-). Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Elaborado no Instituto Antônio Houaiss de Lexicografia e Banco de Dados da Língua Portuguesa S/C Ltda. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. p.319.

MAGGIO, Vicente de Paula Rodrigues. O crime de assédio sexual. Publicado em: 10 Abr 2014, 15h25. Disponível em: [https://vicentemaggio.jusbrasil.com.br/artigos/121942480/o-crime-de-assedio-sexual]. Acesso em: 28 Dez 2016.

REDE de Ensino Luiz Flávio Gomes. A caracterização do crime de assédio sexual. Publicado em: 29 nov 2008, 11h58. Disponível em: [https://lfg.jusbrasil.com.br/noticias/290195/a-caracterizacao-do-crime-de-assedio-sexual]. Acesso em: 28 Dez 2016.

ROCHA, Gabriela. Decisão levanta debate sobre assédio no trabalho. Publicado em: 19 Mar 2011, 05h35. Disponível em: [http://www.conjur.com.br/2011-mar-19/existencia-assedio-sexual-mesmo-nivel-hierarquico-ainda-gera-duvidas]. Acesso em: 28 Dez 2016.

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