“Rogue One: Uma história Star Wars” não é sobre heróis e vilões

Encerrando um 2016 cheio de produções cinematográficas da Disney, o longa Rogue One: Uma história Star Wars (Rogue One: A Star Wars story) recebeu muitos elogios – alguns exagerados, como que o filme seria o melhor do ano ou mesmo o melhor de toda a franquia à qual pertence -, mas também críticas – das quais, pelo que eu pude observar,  a esmagadora maioria é idêntica onde quer que elas sejam feitas e independentemente de quem as faça. E foi, em boa parte, por conta dessas “críticas em comum” e “elogios exagerados” que eu resolvi fazer este breve artigo com spoilers.

Eu deveria ter assistido o filme mais cedo, talvez na pré-estréia, mas eu nunca consigo assistir nada na pré-estréia ou mesmo na data de lançamento. Sempre acontecem imprevistos que me impedem. Desta vez, o Destino foi além e fez com que, além de fazer com que eu não conseguisse assistir o filme mais cedo, a queridíssima atriz e escritora Carrie Fisher falecesse exatamente na data em que eu reservei na minha agenda para ver o longa na companhia da minha namorada (que ainda não viu nenhum dos então sete episódios da franquia – não, ela não é do universo de Star Wars). Fui ao cinema pesaroso – principalmente porque, como não dou a mínima para spoilers (revelações de roteiro), já sabia da aparição da princesa Leia no fim do longa.

Antes de prosseguirmos, segue uma consideração: embora o filme esteja recheado de referências, não tratarei delas aqui porque: 1) a quantidade é igual ou superior à existente em Batman vs Superman: A origem da justiça, de modo que listar tais referências exigiria muito tempo, coisa que não disponho no momento; 2) ainda não tive acesso a todo o material não-cinematográfico da franquia que agora é considerado canônico, então, inevitavelmente, muita coisa ficaria de fora. Isso dito, vamos ao filme.

ROGUE ONE É DIGNO DE ELOGIOS, MAS SEM EXAGEROS.

Sim, o primeiro filme da franquia Star Wars produzido para funcionar de forma autônoma, não havendo a necessidade de se ter assistido todos os (então) sete episódios para entendê-lo, e sem ser uma obra centrada no conflito entre as ordens sith e jedi  ou em algum drama familiar colocado em dimensões épicas funciona muito bem. Por exemplo, minha namorada – que nunca ainda não assistiu qualquer um dos outros sete Star Wars e tampouco Caravana da Coragem – sendo a maior prova disso.

Basicamente, a história é mais redondinha que o BB-8 (e o filme no qual ele fez sua primeira aparição), os efeitos especiais e o visual como um todo são indiscutivelmente incríveis e a trilha sonora fica ali entre o bom e o satisfatório, poderia ser excelente, claro, mas como não chega a ser um problema, isto é, não atrapalha em nada, já está de bom tamanho. Claro, a ausência das músicas clássicas utilizadas nos filmes pertencentes às trilogias pode incomodar os mais puristas, mas como o filme não é sobre qualquer Skywalker, tal falta é justificável.

Coloquei aqui essa foto de uma das mais marcantes cenas de Rogue One só para dizer que o filme também apresenta mais um fator para que stormtroopers errem seus tiros (além do fato de não serem clones do maior madaloriano que a Galáxia já viu e de errarem propositalmente em algumas situações): eles não acertarão quem é ou está unido à Força, como no caso do guardião do Whills cego, Chirrut Îmwe.

Agora, o filme é o melhor do ano? Não, claro que não – a não ser que se coloque essa discussão no campo da subjetividade. Deste modo, sim, pode-se falar que o filme foi o melhor do ano para fulano, ciclano ou beltrano. Para mim, por exemplo, dentre os filmes que assisti (e não dentre todos os filmes lançados, pois não vi todos), ele foi o melhor do ano, ainda que Dr. Estranho tenha me causado maior maravilhamento, Zootopia tenha me feito refletir bastante e Warcraft, apesar dos pesares, quase tenha arrancado uma gota de suor masculino ocular em determinado momento (spoiler: mais especificamente quando a Garona faz o sacrifício duplo em que, a pedido do rei, o mata e se salva, sacrificando também o acolhimento que havia conseguido junto aos humanos).

O filme também não é o melhor da franquia. E por um motivo bem simples: ele simplesmente não existiria se os então sete episódios de Star Wars não existissem. A não ser, claro, num universo alternativo onde Rogue One: Uma história Star Wars seja o filme que dá início a tudo. Claro, embora ele consiga funcionar e se fazer entender sem os outros filmes da franquia, a sua história está condicionada a de todos eles.

As referencias existentes em todo o longa-metragem são a maior prova disso, pois elas o ligam a coisas externas e precedentes ao filme (há quem diga que também há ligações com coisas subsequentes a ele, como o Episódio VIII), já que tais referências o são a acontecimentos que antecedem ou sucedem a história contada por Rogue One: Uma história Star Wars.

Exemplo disso, além do esperado e necessário gancho, no final do filme, para Star Wars – Episódio IV: Uma nova esperança, é o refúgio-prisão de Darth Vader no planeta vulcânico Mustafar, o qual fora o palco do duelo que aconteceu entre Anakin Skywalker e Obi-Wan Kenobi em Star Wars – Episódio III: A vingança do sith, bem como os guardiões do Whills são uma referência à Antiga Ordem do Whills, da qual, segundo o antigo Universo Expandido (atual Legends), um xamã (ou um guardião do Whills aos moldes do Chirrut Îmwe) teria descoberto o segredo para a imortalidade espiritual, isso ligando o spin off tanto à trilogia clássica (onde aparecem os fantasmas da Força) quanto à segunda (onde Yoda chega a se comunicar com Qui-Gon Jinn e, posteriormente, diz a Obi-Wan Kenobi que o ensinará a se comunicar com o seu antigo mestre).

O castelo de Darth Vader em Rogue One

Ora, a Leia sendo uma princesa, é natural que o pai dela tenha um castelo (risos).

Porém, claro, ele pode ser considerado o melhor filme da franquia após a trilogia clássica – e olha que eu gosto da prequência, sendo um longa surpreendente – principalmente em relação aos seus trailers, além de mostrar parte da já conhecida história de Star Wars sob outra perspectiva, a de pessoas envolvidas na guerra e que não são os heróis ou vilões. Deste modo, há drama familiar e aventura de menos, enquanto há perdas reais e guerra (de fato) na medida certa.

AS CRÍTICAS COMUNS A ROGUE ONE QUE NÃO CONSIDERAM O ÓBVIO.

Basicamente, as pessoas que eu vi descendo a lenha em Rogue One: Uma história Star Wars possuem críticas em comum, as quais são: 1) o filme foi feito apenas para explicar o porquê de a Estrela da Morte ter uma falha estrutural tão ridícula; 2) os personagens são fracos, você não se importando nem com os membros do esquadrão Rogue One nem com os vilões, sendo que, dentro desta crítica, se incluem as críticas 2.1 (Jyn é uma personagem feminina fraca) e 2.2 (o vilão Orson Krennic é apagado e fraco).

Pois bem, quanto à crítica 1, o fato de o filme ter como base a explicação para que uma arma tão potente como a Estrela da Morte tenha uma falha tão ridícula simplesmente não é desmérito algum para o filme, muito pelo contrário. E essa é a coisa óbvia que essa crítica desconsidera, pois terem conseguido fazer um excelente filme a partir desse gancho é algo realmente admirável.

Agora, quanto à crítica 2, ela não considera o óbvio fato que tais personagens, tanto os membros do esquadrão Rogue One, quanto o Diretor Orson Krennic e sua turma (soldados em geral – e soldados ou matam ou morrem ou ambos), simplesmente devem não importar, pois o que realmente importa é a causa à qual cada grupo serve. O que importa é a missão de roubar os planos da Estrela da Morte do banco de dados em Scarif, não aqueles que executarão tal missão.

Em Rogue One, o que importa é o lado defendido pelas personagens e não elas em si.

Da mesma forma, Krennic não é importante, não passa de alguém substituível dentro da estrutura hierárquica do Império Galáctico, sendo descartável, como, primeiramente, Grand Moff Tarkin deixa claro e, posteriormente, Darth Vader também, toda e qualquer dúvida a esse respeito sendo destruída juntamente com a base imperial em Scarif.

E é exatamente porque as missões, causas ou mesmo ideologias são mais importantes do que os personagens que as críticas 2.1 e 2.2 só fariam todo o sentido do mundo se o filme fosse sobre pessoas ou mais especificamente sobre o protagonismo e o antagonismo de determinadas personagens da história de certa galáxia muito, muito distante.

O Orson Krennic, por exemplo, foi acusado de não ter cometido nenhum ato vilanesco no filme inteiro, mas veja bem: ele precisa ser fraco, pois fracos não sobem na hierarquia do Império e tampouco sobrevivem a ele, o primeiro diretor da Estrela da Morte tendo, no longa, a função de mostrar exatamente isso. Cabe aqui ressaltar que Krennic cometeu ao menos um ato vilanesco: ele ordenou a execução dos engenheiros da super arma do Império Galático mesmo após Galen Erso admitir a sua responsabilidade pela falha na Estrela da Morte.

Quanto à Jyn Erso, ela representa exatamente aquelas pessoas que não gostariam de ter qualquer envolvimento com a guerra, mas que, por algum motivo, acabam se vendo bem no meio delas e forçadas a tomar parte de um lado ou formar um novo partido. Há momentos no decorrer do filme onde pistas quanto a isso são dadas, alguns dos quais também indicam o quão perdida ela se encontra e como as circunstância que a conduzem ao envolvimento no conflito também a levarão a se encontrar.

Saw Gerrera, o rebelde extremista.

Saw Gerrera: “Então, o que é que você quer, Jyn?”

Um desses momentos é o diálogo que ocorre após Jyn explicar para Saw Gerrera que a Aliança quer encontrar Galen Erso e a enviou para contatar o extremista a fim de descobrir a localização do cientista imperial. Na ocasião, o dissidente da rebelião pergunta a ela: “Então, o que é que você quer, Jyn”?

Em resposta, ela diz que: “Eles queriam uma introdução, eles têm. Agora estou fora. O resto de vocês pode fazer o que quiser”.

E escuta de Saw Gerrera a seguinte indagação: “Você não se importa com a causa”?

A resposta dela sendo: “A causa? Sério? A Aliança? Os rebeldes? Seja lá do que for que estão chamando nos dias de hoje? Tudo o que me trouxe foi dor.”

E Saw faz outro questionamento: “Você pode ficar de pé para ver a bandeira imperial reinando através da Galáxia?”

A última resposta dela, antes do extremista mostrar a ela a mensagem que Galen enviou para ele, deixa bem clara toda essa isenção ou desejo de paz da Jyn: “Não é um problema se você não olhar para cima”.

Estrela da Morte disparando contra Jedha, em Rogue One.

Continue não olhando para cima e fique sem ver a destruição iminente. Eis a Estrela da Morte destruindo a cidade em Jedha.

Aliás, esse desejo de paz ou essa isenção portada por ela também pode ser entendido como pragmatismo, o mesmo pragmatismo das massas populares do nosso mundinho real que, em geral, não se importam com quem esteja no poder máximo, desde que elas possam continuar levando as suas vidas em paz.

E por falar em paz, eu diria que esse é o tema do filme, sendo abordado por diferentes ângulos ou múltiplos entendimentos. No entender do Império, por exemplo, a paz desejada para a Galáxia será necessariamente atingida mediante a intimidação de um poderio imenso como o da Estrela da Morte. Galen Erso aponta para Krennic que esse entendimento, na verdade, se trata de terror. Noutras palavras, o cientista acusa os imperiais de serem terroristas.

Outro entendimento a respeito da paz desejada é expressado pelo personagem Cassian Andor em si, quero dizer, ele personifica essa busca. Digo isso porque, em determinado momento, ele afirma que “para alguns, como ele, a rebelião tem durado toda a vida” e nessa afirmação está contido o desejo para que as coisas fossem diferentes, o sentimento de que ele luta não porque ama a guerra, mas porque deseja a paz, algo no melhor estilo “se desejas a paz, prepara-te para a guerra”. E Cassian Andor encontra a paz, mas somente quando a base imperial em Scarif é varrida do mapa pelo disparo da Estrela da Morte.

Voltando para a pauta principal desta seção, outro momento em que é mostrado que Jyn representa as pessoas que procuram não tomar partidos em conflitos se dá em Jheda, quando ela está de conversa com Chirrut Îmwe e Cassian Andor a busca, dizendo: “Não estamos aqui para fazer amigos!”

Além de fazer a representação supracitada, essa frase também pode ser vista como uma dica implícita ao público de que as personagens ali não importam, mas sim a missão e que, portanto, o espectador não deve se prender a elas, não deve tomá-las tal como tomaria um Skywalker, Solo ou certo wookie contrabandista. As personagens do esquadrão Rogue One não estão ali para fazer amigos, mas a missão talvez esteja (pois a diversidade de pensamento existe e sempre haverá quem prefira “fazer amizade” com uma missão imperial, por exemplo).

“Hm… Até que eu gostei desse CG que fizeram de mim em Rogue One!”

Por fim de seção, embora não se possa dizer que a seguinte crítica ignora o óbvio, ela não deixa de ser bem comum. Eu também vi muita gente e alguns memes criticando a computação gráfica utilizada para recriar atores, no caso, o já falecido Peter Cushing e, à época, a apenas envelhecida Carrie Fisher. Bom, quanto a isso, assisti o filme em 3D e não vi má qualidade no efeito, muito pelo contrário. Então, pode ser que esse problema tenha ocorrido na versão normal do filme, não sei dizer.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Rogue One: Uma história Star Wars é um excelente filme pertencente à franquia Star Wars, mas que tenta desvencilhar-se de certas tradições, seja pelo tom do filme ou pelo aparente abandono de elementos característicos, como o texto em amarelo ascendendo no começo de cada longa ou a presença da frase “eu tenho um mau pressentimento sobre isso” em todos os sete filmes anteriores. Além disso, como dito anteriormente, é um filme que mesmo quem não assistiu nenhum outro longa da franquia vai entender – não vai captar as referências e, consequentemente, toda a carga emocional de alguns momentos, mas vai entender e, se não achar um filme mediano, vai gostar.

Porém, ainda cabem algumas considerações. Para começar, o droide K2-SO é, sem dúvida alguma, o mais carismático de todos os personagens centrais, conquistando a simpatia e a empatia do público, sendo que, além dessa característica, o droide de origem imperial reprogramado pela Aliança Rebelde é o perfeito representante da tese aqui defendida, isto é, de que não são os personagens que importam, mas sim a causa por eles lutada, já que, mesmo tendo origem imperial, tendo a sua aparência mantida e apesar dos prováveis atos que possa ter feito contra os rebeldes, ele luta ao lado deles devido à reprogramação sofrida. Não importa quem você é ou como aparenta, o que importa é a causa pela qual luta e, se não está do lado considerado certo, pode mudar de opinião (mesmo que à força).

Por fim, os momentos em que o filme trata de esperança justificam o título do Episódio IV, mas há também uma excelente justificativa para que o letreiro amarelo tradicional dos filmes da franquia não esteja neste spin off: toda a história contada por Rogue One: Uma história Star Wars simplesmente se encontra descrita pelo letreiro do primeiro Star Wars lançado, quero dizer, o filme é o letreiro.

Eis a sinopse de Rogue One: “É um período de guerra civil. Naves espaciais Rebeldes, atacando de uma base escondida, tiveram sua primeira vitória contra o maligno Império Galáctico. Durante a batalha, espiões rebeldes conseguiram roubar os planos secretos da mais nova arma do Império, a ESTRELA DA MORTE, uma estação espacial armada com poder o suficiente para destruir um planeta inteiro. Perseguida pelos agentes sinistros do Império, Princesa Leia foge para casa a bordo de sua nave, em custódia dos planos roubados que podem salvar seu povo e restaurar a liberdade para a Galáxia….”

One comment

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